Apreciador Ou Bebedor?

Você é Apreciador Ou Bebedor ?

Começo este texto contando duas histórias.

A primeira é sobre um enófilo que encontrei há muitos anos atrás em um evento de vinhos.

Eu e alguns colegas estávamos comentando sobre alguns bons vinhos que estávamos provando naquele momento quando ele se aproximou para nos contar sobre o vinho muito famoso que ele tinha provado.

Descreveu precisamente todas as características técnicas do vinho: percentual de cada variedade de uva, quanto tempo passado em barricas, teor de álcool, região onde estavam os vinhedos, quantos hectares, etc.

Ouvimos tudo atentamente e quando ele terminou a descrição deste grande vinho, perguntei: mas e você, o que achou do vinho?

Ele olhou para mim com um ar de espanto e logo respondeu: ah, é um dos melhores vinhos do mundo, recebeu mais de 90 pontos do Robert Parker!

A segunda história é sobre uma jovem garçonete de uns 28 anos que conheci em 2009 no restaurante de um hotel, quando fui fazer um treinamento de vinhos para a brigada.

Ela é natural do Paraná e trabalhou boa parte de sua vida no sítio da família. Veio para o hotel em busca de uma nova carreira e até então seu único contato com vinho tinha sido com os de mesa.

Não demorou para ela mostrar uma afinidade incrível com o novo mundo dos vinhos finos que ela começava a provar.

Descrevia os aromas que sentia de uma forma natural e muito interessante, associando primeiro a cores e depois a elementos do campo aos quais ela sempre esteve acostumada: milho, palha de milho, grãos variados, ervas, frutas e plantas em geral.

Em pouco tempo ela aprendeu a gostar destes vinhos e passou a se interessar em provar coisas novas, aprender e conhecer mais, se tornando uma das melhores vendedoras do restaurante.

Pessoalmente acho que estes dois personagens exemplificam bem a diferença entre o apreciador e o simples bebedor de vinhos, figura muito comum no nosso mercado.

Engana-se quem acredita que o primeiro personagem representa o apreciador. A Sol, como era carinhosamente chamada pela equipe, nossa segunda personagem, é muito mais apreciadora que o primeiro.

Chocado?

Pois é, para ser apreciador de vinhos ou de qualquer outra coisa, não é necessário ser o grande entendedor, não requer saber de cor a lista dos Top 100, as notas de cada safra que um vinho ganhou e suas especificações técnicas, ou o que todo mundo está falando do vinho no aplicativo da moda. Isso é apenas informação.

Apreciar antecede o entender, porque a apreciação é curiosa, leva a busca da informação e do conhecimento, que torna então o apreciador em um entendedor.

No mundo do vinho define-se o ato de degustar como beber com atenção, o que vale para tudo na vida: comer, ler, assistir a um filme ou show, visitar uma exposição de arte e tudo mais que pode ser apreciado.

Beber com atenção significa perceber as sensações que o vinho causa aos nossos sentidos, apreciá-lo. Vale para isso combinar as informações técnicas disponíveis sobre o vinho, decorrentes da apreciação feita pelo enólogo e pelos críticos, com as suas próprias percepções, para assim chegar a sua opinião pessoal sobre o vinho.

É neste ponto em que o bebedor perde a grande oportunidade de se tornar um verdadeiro apreciador, pois parou no simples ato de beber aquilo que lhe dizem que é bom, mas se esqueceu de prestar atenção e confiar em sua própria percepção para realmente saber se gosta ou não.

Temos que reconhecer, num mercado onde somos massacrados com propagandas do tipo “beba isto, coma aquilo, use este, faça assim, seja assado”, é muito mais fácil gostar do que todo mundo diz para gostar do que se dar ao trabalho de descobrir sozinho.

E é preciso também muita personalidade para dizer “não gosto” para um vinho, mesmo que seja famoso ou bem pontuado, e “gosto” para aquele mais simples e barato, muitas vezes comprado no supermercado.

Isso me faz lembrar de um querido professor meu do curso de Sommelier, experiente apreciador que já provou de tudo o que este mundo do vinho é capaz de produzir, e que não tinha o menor problema em dizer que não gosta de Brunello de Montalcino. E ele jamais disse “Brunello di Montalcino é ruim”, apenas “não gosto”.

Esta é outra grande diferença entre um apreciador e um bebedor. Bebedores jamais dirão que não gostam de um vinho ícone do mundo, e irão classificar como ruim tudo aquilo que não se parecer com ele.

Um apreciador sabe reconhecer o bom trabalho feito por um grande produtor e a importância que seus vinhos tem para o mercado, porém sabe dizer se o agrada ou não, sem precisar desmerecer o vinho.

Caminho natural de todo apreciador é ter o desejo e a curiosidade de provar estes grandes vinhos, pois são as referências de qualidade, seja para quem quer produzir ou para quem quer se tornar um entendedor.

Mas ele nunca irá perder a curiosidade de provar o novo e o diferente, o vinho menos famoso e nunca pontuado, às vezes até o mais simples, mas onde ele sabe que poderá encontrar agradáveis surpresas.

É fácil perceber esses dois comportamentos nas feiras de vinhos. O bebedor chega para quem está servindo os vinhos, seja ele o distribuidor, importador ou o produtor em pessoa, e pede: “qual é o teu vinho top?”. O apreciador pede para provar todos os vinhos.

Nada de errado em gostar de vinhos top, premiados e com altas notas, em acompanhar os guias e aplicativos, e querer saber todas as informações possíveis sobre um vinho.

O problema é achar que esta é a verdade absoluta do vinho e que tudo mais que estiver fora destes padrões é porcaria.

Apreciar vinhos vai além, é ter liberdade e curiosidade para provar de tudo e para se permitir gostar daquilo que agrada ao próprio paladar, que dá prazer. É também não impor seu paladar ao outro, algo que os bebedores adoram fazer.

Agora alguém deve estar pensando “qual o problema? cada um bebe o que quer e como quer”. Verdade, a discussão democrática de tudo é sempre saudável.

O grande problema é que novos consumidores interessados em ingressar neste mundo se sentem totalmente desestimulados ao ser iniciado por um bebedor, que os faz pensar que tomar vinho é coisa complicada, cheia de frescuras e rituais, uma arte restrita apenas a entendedores.

Então acabam preferindo a cerveja e a caipirinha por ser menos complicado, mais divertido e prazeroso.

A boa notícia para estes novos consumidores é que o vinho também pode ser divertido, é cheio de histórias para contar, faz a gente querer viajar e naturalmente querer conhecer mais.

É sobretudo agregador, um grande prazer a ser dividido com todos os que também o apreciam.

Então vamos beber menos e apreciar mais, sem qualquer moderação!

Saúde!

Por Sonia Denicol

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