Pomerol: A Borgonha de Bordeaux

A Borgonha de Bordeaux

Pomerol é a filet mignon da margem direita de Bordeaux, onde a Merlot atinge seu ápice no mundo.

Um pequeno miolo não longe do vilarejo medieval de Saint-Émilion, os solos de pequeno Pomerol são únicos, nenhuma outra região de Bordeaux possui uma composição geológica parecida. As primeiras camadas de argila, cascalho e calcário dão lugar a uma argila azul chamado smectite, raríssimo na terra e em nenhum outro lugar tão abundante quanto em Pomerol. A evidência é que veio de origem extra-terrestrial: o mais provável é que os famosos solos de Pomerol foram criados por impacto meteórico, 40 milhões de anos atrás.

Mas Pomerol não se distingue somente pelos seus solos, e também pela viticultura e filosofia, únicas na região. Pomerol tem muito mais a ver com a Borgonha do que o resto de Bordeaux. 

Aqui pequenos artesãos labutam nas suas terras pessoalmente, sem uso de mecanização, toda poda e colheita feita a mão, a maioria das vezes pelos proprietários, que também tendem de ser os viticultores (“vignerons”). 

As ilustres propriedades do Médoc e Saint Émilion, enormes e modernos mansões, rodeadas por dezenas de hectares plantadas, não são encontrados aqui. Na média, um produtor de Pomerol possui apenas 3 hectares. Plantadas com vinhas velhas, de 50 anos ou mais, os baixos rendimentos permitem produzir pouco vinho, talvez umas 7.000 garrafas por ano, apenas. (Há inúmeras grandes Chateaux de Bordeaux que produzem milhões, para comparar).

Em Pomerol, tanto quanto na Borgonha, a produção orgânica e biodinâmica começou décadas atrás, também, tanto quanto na Borgonha, quase nenhum vinhedo busca obter certificação. 

“Óbvio que vamos querer fazer o que for mais saudável para nossas uvas, também para minha família, já que nós moramos nas nossas propriedades,” disse um representante da Château Beauregard em conversa comigo em uma degustação em 2019. “Utilizamos técnicas orgânicas e biodinâmicas, mas queremos ter opções, sem limitar possibilidades. Também, não posso controlar se o vizinho do lado usar algum pesticide que de repente o vento levar para minhas vinhas.”

Pomerol fica fora da sistema de classificação Cru Classé utilizado em grande Saint-Émilion e na Médoc, uma entidade a parte. Ainda assim, o vinho mais valioso de Bordeaux vem de Pomerol, a Château Petrus.  Outros nomes de peso como a Le Pin, Château Trotanoy e Château LaFleur tem valores extratosféricos. Desde a safra 1982, que surpreendeu o mundo e deu início à carreira do crítico Robert Parker, por sua avaliação tão positiva dos vinhos de Pomerol e de Bordeaux, os vinhos de Pomerol tem mais procura que oferta, hoje a pequena região de 800 ha produz os vinhos mais valiosos de Bordeaux. 

Tanto por esta demanda quanto pela filosofia artesanal que remete a Borgonha, quase nenhum produtor submete seus vinhos aos críticos principais para pontuação e avaliação. Para eles, basta a inclusão da AOC Pomerol no rótulo, o único marketing precisado.

Difícil de achar…

Um dos grandes críticos de vinhos da nossa época, o Eric Asimov da NY Times, fez questão de destacar duas vezes em dois meses uma pequena propriedade de Pomerol.

O ano foi 2018 e o produtor a Clos Saint-André.

Sigo Asimov bastante tempo e a curadoria dele é excelente, anotei o nome “Clos Saint-André” no meu caderno ao ler a segunda matéria publicada pelo crítico. 

Um ano depois, em viagem em Bordeaux com meus pais, lembrei do produtor e decidi ir atrás. 

Não foi nada fácil encontrá-lo. Por pesquisa google não achei nada, o produtor nem tinha site. Ao ligar no único número de telefone que achei só tocou, sem caixa postal. Finalmente encontrei um email que poderia ser do produtor. Mandei uma mensagem. Também sem sucesso, fiquei sem resposta, por dias.

Tudo bem, então. O cara não quer ser contactado. Tem produtores que já estão satisfeitos com as importadoras atuais ou que nem tem vinho para vender. É assim mesmo, não fiquei ofendido. Esqueci dele e foquei em outros da região. 

Quase uma semana depois, na nossa última tarde em Bordeaux, recebi um email, bem amigável, do Jean-Claude Desmarty, proprietario da Clos Saint-André. Lamentou a demora, se desculpou pela correria, perguntou se eu ainda estava por ali e se não queria passar lá na propriedade dele naquela noite mesmo.

Por sorte a gente tinha decidido terminar a viagem à Bordeaux em Saint Émilion, margem esquerda, e nossa pousada ficava bem próxima ao Pomerol. Deixei meus pais em casa (após passar a manhã na VilleMaurine e Pavie-Macquin eles nem queriam mais vinho, amadores rsrs…) e peguei a estrada.

Bem-vindo !

Me perdi umas duas vezes, apesar do Waze ligado. Pomerol é cheio de chalés, pequenas ruas sem saída, com cachorros soltos latindo e crianças brincando. A terra consagrada de Petrus, Clinet, Lafleur não parecia nenhuma outra região de Bordeaux, me lembrava de uma França rural de outra época, que podia só imaginar de livros e filmes. 

Clos Saint-André. Cheguei na frente quase sem reparar, sem entender. O Clos era uma casa, pequena, simples, linda, com uma estrada de barro na frente, formidável para atravessar após as chuvas do início da tarde. 

O Jean-Claude Desmarty me esperava. Longe dos conterrâneos do Médoc, com seus sapatos Hermes e seus casacos de lã, Desmarty adornava uma camiseta preta e calça jeans, botas cheias de barro, grande sorriso pintado no rosto. 

“Seja bem-vindo! Meu inglês… não é tão bom… Você gostaria de sentar e beber um vinho?”

Uma maestria não ortodoxa

Ao longo das próximas 4 horas sentamos na pequena mesa e degustamos e conversamos. Tinha muito assunto. 

Desmarty é fora do comum, em todos os sentidos. 

A terceira geração em Pomerol, começou a produzir seu próprio vinho somente em 2004. Sua propriedade é minúscula, até para os standards de Pomerol: apenas 0.6 hectares, que permitem produzir apenas 2.100 garrafas por ano. Faz um único vinho, seu cuvée principal, que leva o nome da propriedade. 

Merlot domina no vinhedo, como em todo Pomerol. A Merlot de Desmarty foi plantada por seu avô, suas vinhas possuem, em média, 75 anos, uma raridade em Bordeaux (e no mundo)! Os vinhos também levam até 10% Cabernet Franc, com seus aromas florais e delicadeza e, em algumas safras, até 10% de Cabernet Sauvignon, que aporta acidez e estrutura.

A colheita das diversas cepas é feita junto, tudo é vinificado junto também, uma filosofia não ortodoxa – que para ele funciona muito bem. Segundo ele, prefere limitar a quantidade do vinho produzido e focar na qualidade do seu cuvée. 

Fazer 3 colheitas distintas, uma para cada casta, e depois vinificar separadamente antes fazer o blend final seria a escolha de quase todos os outros produtores de Bordeaux, no caso de Desmarty a mágica vem de fazer ao contrário. 

Desmarty admite que faz tudo: a poda, a colheita, a escolha da madeira, a vinificação. Um verdadeiro “pau de toda obra”. 

Questionei isso. Uma colheita inteira feita por uma única pessoa é um esforço imenso! 

Desmarty explica. 

“Há muita gente que vem de Nova York, da Flórida, na época da colheita, para fazer turismo em Bordeaux. Ouviram falar dos nossos vinhos e sempre sonharam em fazer parte da colheita em Pomerol. Alguns oferecem me pagar, inclusive, para colher minhas uvas! Então boto eles a trabalhar. Eu estou sempre supervisionando. Às vezes um amigo ou outro vem ajudar também. Este ano o eletricista fez parte, ano passado o gerente da minha conta no banco. Em 5 horas terminamos tudo! Muito eficiente.”

Adorei. Não parou por aí. Enquanto sentamos na sua cozinha e ele nos servia, soltou mais umas pérolas.

“Falar que vinho é feito no vinhedo é um absurdo. Isto é para turistas ouvirem. As decisões feitas na vinificação e depois são enormes, a qualidade das matérias utilizadas determinam muito. De qual floresta veio a barrica que um produtor usa? Vai ter um efeito direto no maciez dos taninos. Ninguém está falando disto, ainda.”

“Por que usar fertilizante que não seja o mais natural? Cavalos são excelentes para isso. Sempre uso ao longo do ano. Deixam a terra compacta mas não como uma pedra que nem os tractores, comem a grama, também os raízes mais superficiais, encorajam as vinhas a desenvolverem raízes mais profundas e resistentes.”

“Vinho é para beber, não guardar. Precisamos fazer vinhos que as pessoas vão querer e poder tomar, não deixar numa coleção como se fosse uma obra de arte, admirado por longe. A experiência é na garrafa. Abre e tome.”

Os vinhos

Degustamos dois vinhos, de duas safras célebres. Sobrava um pouquinho de cada, já pré-alocada para a Rosenthal, famosa importadora boutique em Nova York, que compra a maioria da produção anualmente. Já uma pequena fatia vai para Londres e o resto é requisitado para fazer parte da carta de restaurantes de renome na própria França, como o Guy Savoy, prestigiado com 3 estrelas Michelin.

Os vinhos degustados e avaliados são os mesmos que serão oferecidos agora no Brasil exclusivamente pela Sonoma. A visita foi um sucesso: a gente se entendeu e o Desmarty ficou empolgado para trabalhar conosco. A partir de agora a Sonoma receberá uma pequena alocação todo ano, a única importadora na América Latina.  

Clos Saint-André Pomerol AOC 2015

Densos, profundos e impactantes os aromas de amoras, cerejas pretas, kirsch, ameixa preta, tudo começa a evoluir na taça de forma inebriante após 20 minutos. Em boca robusto e poderoso, porém com incrível finesse e elegância, uma catarata de fruta preta que se amplia e expande na língua com uma persistência e evolução quase sem fim. Nuances de chocolate e mocha intercalam com fruta fresca e madura, ameixas pretas e amoras bem no ponto de colher, com acidez brilhante e frescor inigualável. Os taninos são macios, bem presentes, mas finos que nem um veludo herança da vinificação completamente sem hastes (e também por conta do tipo de madeira utilizada nos barris, segundo o produtor). Excelente Pomerol, que oferecerá prazer agora e também para frente. Decantar e tomar agora ou até 2035. 96 Pontos

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Clos Saint-André Pomerol AOC 2016

Aromas sensuais de berries e frutas pretas, amoras e ameixas, mirtilos também, sedutores e profundos para um tinto tão jovem. Em boca oferece uma leveza elegância que é a marca da safra, junto a um núcleo de fruta preta madura, densa e opulenta e carnuda. Com acidez um pouco mais elevada da 2015 e um pouco menos músculo, o vinho entrega incrível finesse e a promessa de grande evolução na guarda. Bastante cereja preta e traços de café mocha e chocolate ao leite,camadas integradas e harmoniosas. Taninos aveludados, deliciosos, viciantes. Tomar entre 2022 – 2040. 95 Pontos

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Alykhan Karim

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