Nem só de vinhos leves, frescos e levemente frisantes vive a região de Vinhos Verdes, a área vinícola mais ao norte de Portugal, fronteira com a Espanha. Há, nesta região, brancos mais complexos em aromas e sabores; alguns até com mais estrutura, conforme a uva eleita e o estilo do produtor e, mais impressionante ainda para quem fica apenas na imagem dos brancos levinhos, com boa capacidade de envelhecer por anos na garrafa.

Porque apostar nos Vinhos Verdes, por Suzana Barelli

Nem só de vinhos leves, frescos e levemente frisantes vive a região de Vinhos Verdes, a área vinícola mais ao norte de Portugal, fronteira com a Espanha. Há, nesta região de solos graníticos e muita chuva, brancos mais complexos em aromas e sabores; alguns até com mais estrutura, conforme a uva eleita e o estilo do produtor e, mais impressionante ainda para quem fica apenas na imagem dos brancos levinhos, com boa capacidade de envelhecer por anos na garrafa.

Eu mesma, confesso, me deixei surpreender com essa região, que dizem que tem este nome exatamente pela paisagem exuberante, em duas viagens que fiz para Portugal. A primeira, por volta de 2007 ou 2008, incluía visitar Monção e Melgaço, uma das nove sub-região do Minho (como Vinhos Verdes também é chamado). Lembro da minha surpresa no primeiro gole de um branco do hoje famoso produtor Anselmo Mendes. Era o seu Muros Antigos, que tinha (ainda tem) uma garrafa com muito estilo, mais cumprida. Estava chegando à região, sua vinícola era a primeira a ser visitada e aqueles vinhos eram tudo que eu não esperava encontrar num Vinho Verde. Nada daquelas pequenas borbulhas e de goles que passam ligeiros no paladar, às vezes até meio doce. Eram vinhos mais complexos, com notas cítricas que me impressionaram.

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Região de Vinho Verde. Fonte: CVRVV.

Na visita, o produtor falava empolgado da uva Alvarinho, dos seus estudos sobre fermentação em barricas, numa época em que os tanques de inox pareciam ser onipresentes, e do plano de erguer uma nova adega. Com o tempo, Mendes se tornou uma referência na região e atualmente tem vinhedos não apenas em Monção e Melgaço, mas também em Lima, a sub-região do Minho onde reina a uva Loureiro; e em Baião, outra sub-região já quase no Douro, em que as variedades Avesso e Arinto se destacam.

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Uvas brancas cultivadas na região portuguesa. Fonte: CVRVV.

Minha segunda “surpresa” com a região foi em meados de 2010, quando participei de uma prova em Lisboa com diversas garrafas de Vinho Verde de safras mais antigas. Fui para a degustação curiosa, imaginando que seria uma tarde mais pitoresca. Lembro de encontrar o João Paulo Martins, naquela época jornalista na Revista de Vinhos e hoje na Grande Escolha, publicações de referência em Portugal, que me disse que eu iria realmente me surpreender. E foi o que aconteceu: vinhos com 20, 30 anos ainda vivos, com boas notas de evolução, contradizendo a crença de que vinhos brancos desta região não envelhecem.

É certo que nem todos brancos do Minho envelhecem, assim como nem todos os Borgonhas ou Bordeaux brancos sobrevivem por décadas em garrafa. Mas aqueles vinhos elaborados com maior cuidado, com uvas com capacidade de envelhecer e com a preocupação de ganhar complexidade na garrafa chegam lá.

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Monção, Minho. Fonte: CVRVV.

Estes dois episódios que vivi no intervalo de pouco mais de uma década ajudam a ilustrar o que está acontecendo com os Vinhos Verdes. O primeiro ponto é esta procura dos produtores de cultivar a uva que melhor se adapta a cada uma das sub-regiões. Monção e Melgaço, onde a influência atlântica é menor do que nas demais e o clima é mais quente, é a terra da Alvarinho. E é lá que estão os melhores vinhos elaborados com esta variedade e hoje, para a nossa sorte, não apenas de Anselmo Mendes, mas de várias vinícolas. Monção e Melgaço foi a primeira sub-região a ter um selo de garantia, por exemplo.

Mas as outras sub-regiões se destacam por outras uvas. Em Ponte de Lima, por exemplo, reina a Loureiro, um tanto mais floral do que a Alvarinho. Tem um produtor, a Quinta do Ameal, hoje propriedade da Herdade do Esporão, por exemplo, que só cultiva esta variedade. E, desde o início da vinícola, é lançado sempre um Loureiro com um tempo maior em garrafa, que nem sempre chega ao Brasil, mas que ajuda ao consumidor ir conhecendo brancos com maior evolução. Outra sub-região de destaque é a de Baião, com vinhedos no lado norte do vale do rio Douro. Também dá origem a brancos mais complexos, nem tão levinhos e com ótimo frescor, elaborados com as uvas Avesso e Arinto.

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Viana DO Castelo. Fonte: CVRVV.

Estas três sub-regiões são pequenas frente ao total de 16 mil hectares de todo o Minho e a produção média anual de 80 milhões de litros, segundo dados da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV). Além do terroir privilegiado – o solo granítico predomina, mas há faixas de xisto também –, estas sub-regiões se destacam pela maneira como o vinho é vinificado. Em linhas gerais, ao chegar na vinícola, os brancos são prensados e seguem para o tanque de inox, com controle de temperatura para a fermentação. Mas cada vez mais há exemplos de enólogos que optam por deixar o vinho em contato com as cascas, para ganhar maior complexidade; por fermentar em barricas de carvalho, por utilizar leveduras indígenas, entre outras técnicas de vinificação.

Esta diversidade de estilos também abre o leque das harmonizações. Se antes os Vinhos Verdes eram indicados para dias de calor, com pratos leves, aperitivos; agora as garrafas chegam para harmonizar com os seus pratos principais. “Nossos vinhos têm frescor, uma acidez balanceada, e muitos aromas e sabores”, defende Gonçalo Rowett, responsável pelo marketing para o mercado brasileiro da CVRVV. Estas harmonizações, alias, são a aposta da comissão.

Estes vinhos verdes não têm o preço dos brancos leves de entrada de linha. Mas, mesmo assim, seus preços podem ser vistos como bons custo-benefício quando comparados com os demais vinhos brancos europeus e mesmo com os portugueses. Na verdade, a história dos brancos também é recente na região. Há 40, 50 anos atrás, os Vinhos Verdes eram conhecidos mais por seus tintos rústicos e tânicos – não por acaso, a variedade tinta local mais promissora se chama Vinhão – do que pelos brancos. “A potência da região estava nas castas brancas, mas demoramos para descobrir isso”, afirma Rowett. Hoje, os brancos representam 85% do total produzido. Os rosados vêm a seguir com 10%, e os tintos, com 5%.

Assim, não vou me surpreender se a próxima revolução da região vier com os tintos. Com uma topografia irregular e terrenos mais montanhosos conforme se aproximam das fronteiras com a Espanha, os vales de seus muitos rios permitem a entrada das brisas do oceano Atlântico e, nestes 16 mil hectares de vinha pode ter uma área propícia às uvas tintas, como a Vinhão e a Alvarelhão, suas variedades mais promissoras. Hoje, dos poucos tintos que gostei o destaque são os elaborados por Vasco Croft, do projeto Aphros, que segue, convictamente, a filosofia biodinâmica.

suzana barelli coluna sonoma market
Jornalista especializada em vinhos, Suzana Barelli agora também é colunista especial do Sonoma Market.

Suzana é atualmente colunista de vinhos do caderno Paladar, do jornal O Estado de S.Paulo. Ela escreve de vinhos desde o início dos anos 2.000. Foi editora de vinhos e diretora de redação da Revista Menu, e redatora-chefe da Revista Prazeres da Mesa. Também atuou como jornalista nas revistas Gula, Primeira Leitura e Carta Capital, e nos jornais Folha de S.Paulo e Valor Econômico.

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