Um passeio pelos vinhos naturais, por Suzana Barelli

Minha experiência nas edições da feira Naturebas ao longo de nove edições.

Por Suzana Barelli

As pichações nos muros dão o tom do ambiente alternativo. O chão irregular, com algumas falhas no piso, e a escada em concreto, sem acabamento, ajudam a compor o cenário. De alguma maneira, as 500 taças e as centenas de garrafas de vinho parecem combinar com o local, escolhido para sediar a nona edição da feira Naturebas, que reuniu, no último domingo, os apreciadores dos vinhos naturais, orgânicos e biodinâmicos em São Paulo.

Ocupação Nove de Julho

O endereço foi a Ocupação Nove de Julho, antiga sede do INSS, que se tornou um prédio abandonado no centro de São Paulo, ocupado pelo Movimento Sem-Teto do Centro (MSTC) desde 2016. Por ideia da intrépida Lis Cereja, dona da Enoteca Saint Vin Saint, e seu inseparável braço direito Léo Reis, a ocupação se tornou palco desta feira de vinho agora em 2021. Mais, o dinheiro arrecadado com os ingressos foi utilizado para melhorias no espaço, como a cozinha – que hoje reúne chefs aos finais de semana – e os banheiros (os organizadores não cobram dos expositores e o dinheiro obtido com os ingressos foi repassado para a ocupação).

O endereço escolhido, provavelmente, pouco surpreendeu os presentes – foi quase um “novo luxo”, pelo inusitado do lugar, pela ideia de experiência única, exclusiva, para muitos dos presentes.

Ao longo destes nove anos, o público foi se acostumado e apoiando a filosofia de Lis Cereja em nome dos pequenos produtores, de respeito à sua origem e toda a filosofia que inclui o mundo dos produtos sem agrotóxicos e demais produtos sintéticos e toda a pesquisa em torno dos vinhos com menor intervenção. Alias, até hoje a Naturebas é a única feira de vinhos naturais no Brasil. A outra grande feira neste segmento é a norte-americana RAW, realizada a primeira vez em 2011 e que reúne cerca de 10 mil pessoas por edição.

Nesta Naturebas, os 500 únicos ingressos foram bem disputados e acabaram um mês antes do evento, mesmo ainda em um cenário de pouca aglomeração e de prevenção ao Covid. Quem deixou para comprar na última hora simplesmente não conseguiu sua entrada. Eu mesma, não lembro se em 2014 ou 2015, deixei para a véspera e fiquei sem lugar. Desde então (e dou este conselho a todos), sou uma das primeiras a garantir meu ingresso, ainda no lote de lançamento.

Se o espaço combinou com a proposta, esta acabou sendo uma Naturebas, digamos, diferente. Primeiro pelo baixo número de produtores presentes, resultado das dificuldades de viajar nestes tempos bicudos. Os produtores brasileiros predominaram, com cerca de 20 deles na feira.

Luiz Henrique Zanini, por exemplo, contava, feliz, de uma harmonização com dez safras do seu vinho laranja Peverella, da Era dos Ventos, realizada dias antes com menu do restaurante DOM. Mas Marina Santos, que se lançou na feira edições atrás, com os seus rótulos da Vinha Unna, fez falta. A vinhateira hoje está no Jura, na França.

Sempre lembro dela contando que apresentou os vinhos pela primeira vez em São Paulo exatamente na Naturebas, que as pessoas queriam comprar e ela nem sabia que valor cobrar. Atualmente, ela trabalha com o sistema de venda antecipada (en primeus), com preços como R$ 150, no caso do rosé Furta Cor, elaborado com a sangiovese. 

Senti falta do Eduardo Zenker, que sempre traz alguma boa surpresa na mala, principalmente nos espumantes ancestrais, e do Marco Danielle, com os seus pinot noir da Arte da Vinha – aproveitando, o pinot noir da Vanessa Medin, que trabalhou com ele, estava muito interessante.

Feira Naturebas 2019

Outra ausência foram dos estrangeiros, da feita que já trouxe a Mateja Gravner, filha do ícone Josko Gravner, ao Brasil. E que sempre teve o Vasco Croft defendendo a uva vinhão (ele faz um belo tinto com a variedade na região dos Vinhos Verdes), e do também português Pedro Ribeiro com os seus rótulos do Bojador, já eleitos como exemplos de vinhos em ânfora pela inglesa Jancis Robinson. Foram apenas cinco os produtores presentes, como a argentina Maricruz Antolin, da Bodegas Krontiras, de Lujan de Cuyo, na Argentina.

E tiveram pouquíssimos importadores. Geoffroy de la Croix, presente desde a primeira edição estava lá e, para a sorte de quem gosta de experimentar coisas novas, empresas como a Cave Leman, a Gavinho, a Familia Kogan e a 001 Import, entre outras, trouxeram boas coisas. O branco mais interessante, na minha opinião, foi o Credo, um sémillon elaborado na Argentina pela Escala Humana. Nos tintos, o destaque foi o borgonha Maranges Sur Le Bois Sud, um pinot noir do Les Vins du Clair Obscur.

Manuel Moraga Gutierrez, vinhateiro da Cacique Maravilla

Para comparar, em 2019, até hoje a maior e melhor Naturebas, foram 120 expositores e mais de 2 mil pessoas presentes. No ano seguinte, quando o evento precisou se tornar híbrido, foram 30 encontros presenciais e quase 300 apresentações virtuais, aqui com a possibilidade de conversar com produtores nas plataformas virtuais.

Esta edição, ainda, faz lembrar a capacidade da Naturebas ir se transformando ao longo de suas edições. Na primeira feira, 100 pessoas (e eu fui uma delas) literalmente se espremeram entre as mesas da pequenina Enoteca Saint Vin Saint para provar os ainda pouquíssimos rótulos de vinhos naturais, orgânicos e biodinâmicos disponíveis no mercado brasileiro. Eram 20 produtores e acho que nem o conceito de acidez volátil – o tal ácido acético, que traz aquelas notas de vinagrinho e tende a aparecer em muitos vinhos naturais – estava claro na cabeça (e no nariz) dos consumidores.

A feira cresceu ao mesmo tempo em que conceitos foram ficando claros para os consumidores. Se ainda são poucas as legislações sobre o vinho natural – apenas a França tem o seu “vin méthode nature,” os consumidores destes vinhos já elegem a fermentação com leveduras indígenas como um dos pontos inegociáveis nestes rótulos. E o setor, assim como a própria feira, mostra que este é um caminho sem volta e também rentável. Estudo do Instituto Transparency Market Research mostra que apenas os orgânicos deve movimentar US$ 30 bilhões em 2030.

 

suzana barelli coluna sonoma market
Jornalista especializada em vinhos, Suzana Barelli agora também é colunista especial do Sonoma Market.

Suzana é atualmente colunista de vinhos do caderno Paladar, do jornal O Estado de S.Paulo. Ela escreve de vinhos desde o início dos anos 2.000. Foi editora de vinhos e diretora de redação da Revista Menu, e redatora-chefe da Revista Prazeres da Mesa. Também atuou como jornalista nas revistas Gula, Primeira Leitura e Carta Capital, e nos jornais Folha de S.Paulo e Valor Econômico.

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